1. Home
  2. Fórum
  3. Geral
  4. Da nova casa de research



Da nova casa de research

13/05/2017 19:35:37
Quando entrei para o mercado de capitais, no jurássico ano de 1958, com apenas 18 de idade, nem sabia que existia esse termo: “mercado de capitais”. Só me entusiasmava o fato de que conseguira um emprego, cujo salário me ajudaria a pagar as horas de voo no aeroclube de Belo Horizonte, cidade onde morava na época. Pois, desde menino, tinha certeza de que seria um piloto comercial, de farda, quepe e dragonas, voando DC3s, Constellations e Douglas DC-4, aeronaves a pistão que eram o state-of-the-art no final dos anos 1950.

Fui destacado para a mesa de câmbio, onde pilotei mesmo telefones de magneto, movidos a manivela. Fiquei apenas duas semanas como trainee, sendo logo promovido a operador. A gente comprava dólares dos exportadores e vendia para os importadores, e vice-versa, sempre ganhando um spread.

Não estava havia muito tempo no emprego quando resolvi inovar. Ao invés de fazer essas compras e vendas casadas, passei a comprar e vender dólares vazios, sem a outra ponta definida, apostando na alta ou na baixa do dia seguinte. Ou seja, acho que dei o pontapé inicial do mercado futuro por aqui. Como eu acertava mais do que errava, os spreads se transformaram em lucros e gordas comissões (que a gente chamava de “bicho”) para mim.

Sucesso
Com menos de um ano de trabalho, eu ganhava tão bem que pude comprar um monomotor Cessna 180, além de um carro esportivo zero e acompanhar todos os jogos do Fluminense, no Rio, para onde fazia viagens sempre que o tricolor entrava em campo.

Embora continuasse voando no aeroclube, fui adiando o sonho da carreira de piloto. Aviador passou a ser apenas um hobby, ao qual juntei o paraquedismo. A farda, o quepe e as dragonas foram para as calendas. Meu core business era mesmo o tal de mercado de capitais. Logo acrescentei a bolsa de valores ao câmbio e me tornei diretor da sociedade corretora na qual trabalhava. E assim fui ficando, até que bateu a coceira de mudar, marca registrada de minha vida profissional.

Nos anos 1960 o governo americano, receoso de que a América do Sul se “cubanizasse”, criou o programa AID – Aid for International Development (que aqui levou o nome de Aliança para o Progresso), através do qual deu bolsas de estudo para que profissionais das mais diversas áreas estudassem o verdadeiro capitalismo nos Estados Unidos. Eram 20 vagas para operadores de mercado de capitais na Universidade de Nova York.

Dezenove passaram nos testes (de inglês e economia) e eu fui um deles. Estudei na NYU em 1965 e 1966 e, na volta, fui convidado para trabalhar em um conglomerado financeiro, comercial e industrial com sede no Rio de Janeiro. Tornei-me operador de pregão na bolsa de valores do Rio, à época a mais importante do Brasil.

Para minha enorme surpresa, havia ações aqui, como a do Banco do Brasil, por exemplo, com PL 1. Isso mesmo. O BB era negociado ao preço do lucro anual por ação. Comprá-las, era chutar cachorro morto. E compra-las a termo, alavancado, como fiz, quase um estelionato algorítmico.

Entre janeiro de 1967 e julho de 1971, todo mundo rachou de ganhar dinheiro na Bolsa. Os espertos ficaram ricos. Os normais, ganharam muito dinheiro. Os pascácios não passaram vergonha e puderam comprar seu Fusca, um apartamento na Zona Sul e uma casa em Cabo Frio.

Sem querer me classificar no ranking acima, comprei um Galaxie 500, que era o carro dos carros, e uma cobertura em Ipanema, com vista para o mar. Junto com outros tricolores da Bolsa, alugava jatinhos para assistir jogos do Fluminense em outros estados. E a gente disputava o frete do avião na porrinha, na volta para o Rio, o que era mais emocionante do que a partida do Flu, independentemente do resultado.

No inverno de 1971 terminou o bull market de ações. Não foi uma coisa abrupta, como o crash de 1929 nos Estados Unidos. Aqui o mercado simplesmente parou de subir, andou de lado durante algum tempo e depois foi escorregando. Escorregou por longos dez anos e, pior, perdeu a liquidez. Só que, como que por encanto, surgiu o open market, ou over, como queiram. Onde se podia ganhar muito mais dinheiro do que na Bolsa.

O Brasil emitiu ORTNs (Obrigações Reajustáveis do Tesouro Nacional) e LTNs (Letras do Tesouro Nacional). As instituições financeiras adquiriam esses papéis, de modo alavancado – era possível comprar 20 vezes o valor do capital e reservas −, que rendiam mais do que o custo de carregá-los, no over. E repetiu-se a historinha do esperto, dos normais e dos pascácios.

A gente rachava de ganhar dinheiro.

Nesta altura do texto, o leitor deve estar achando que sou um Warren Buffett tupiniquim, enrustido. Ganhava em todas e me tornava um biliardário. Mas não.

Como disse, eu trabalhava num conglomerado. E o conglomerado pediu concordata. Eu tinha participação em todas aquelas empresas e era avalista delas junto ao Banco Central.

Na manhã de 11 de maio de 1977, meu patrimônio pessoal equivalia a aproximadamente cinco milhões de dólares de hoje. À noite, nesse mesmo dia, aos 37 anos de idade não me restara um centavo.

De maio de 1977 até o segundo semestre de 1988 fui me virando como empregado em trading desks. Voltei a ser assalariado e nem sempre bem-sucedido. Fretar jatinhos pra ver futebol era uma lembrança remota que só me causava arrependimentos por ter jogado tanto dinheiro fora. Só que entre 1983 e 1988, quem sabe assustado com as incertezas daqui – havia o risco de uma moratória interna; a esquerda vivia falando nisso −, passei a trabalhar no mercado internacional de commodities, futuros e opções, os chamados derivativos. Operava carteira própria (pequena) e de clientes (grandes), dando e levando porradas. Ficava na ponte aérea Rio/Nova York/Chicago, “treidando” daqui e de lá. Até que acertei uma na veia.

No verão, do hemisfério norte, de 1988, o mercado de soja, influenciado por uma seca no Meio-Oeste americano, experimentou um dos seus maiores bull markets de todos os tempos, bull market esse que cavalguei, para meus clientes, comprado em deep out of the money calls de Soja Novembro. O resultado foi um lucro (para os clientes, ressalto) de proporções tão grandes que uma aplicação de 100 mil dólares rendeu cinco milhões em pouco mais de um mês.

Embora o investimento (“especulação” é um termo mais adequado) não fosse meu, e não havia nenhuma cláusula de taxa de sucesso, ganhei um “bicho” gordo de cada um deles. Não era dinheiro proporcional ao da alta de Bolsa de 1971 nem do auge do open market. Mas era uma grana que eu não via havia muito tempo. Fui então tomado de grande euforia. Certo?

Errado!

Recomeço
Sem que até hoje possa determinar a causa (quem sabe apenas uma crise de idade), mergulhei numa depressão que durou longos 18 meses, de agosto de 1988 a janeiro de 1990. Foi nessa época que começou a amadurecer em minha cabeça a ideia de me tornar escritor. A primeira ferramenta, eu já tinha. Era um leitor voraz, de tudo quanto é tipo de livro, desde os nove ou dez anos de idade. A segunda, talento para escrever, só testando. E foi o que fiz.

Pesquisando para o meu primeiro livro, “Os mercadores da noite”, gastei boa parte do “bicho” da soja. Viajei para Davenport (Iowa), Chicago, Nova York, Londres, Paris, Bruxelas e Lausanne. Comi nos melhores restaurantes dessas cidades, convivi com travestis em Londres, estudei como explodir o Eurostar, trem do Eurotúnel, passei semanas e mais semanas pesquisando na biblioteca pública da Quinta Avenida, em Nova York.

Quando “Os Mercadores....” ficou pronto, com versões em inglês e português, enviei para mais de uma centena de editores e agentes literários do Brasil, dos Estados Unidos e da Inglaterra. Não recebi uma resposta sequer. Nem mesmo uma cartinha (naquela época os e-mails estavam começando e quase ninguém usava) acusando o recebimento do texto. Nem mesmo um agente dizendo que o livro era muito ruim. Nada.

Como, em abril de 1995, eu parara de trabalhar no mercado para viver de “gordos” direitos autorais, não tive outra alternativa a não ser a de escrever um segundo livro. Foi então que surgiu “Rapina”, escrito em três meses, que consegui facilmente publicar e que já saiu no primeiro lugar da lista dos mais vendidos, lista essa na qual o livro permaneceu durante cinco meses.

Claro que, com “Rapina” tão bem-sucedido, consegui publicar “Os mercadores da noite”. Vieram então “Armadilha para Mkamba”, que, dos meus livros, foi o mais elogiado pela crítica, e “Caixa-preta”, meu maior best-seller até agora. Tornei-me roteirista de televisão (séries “Carga Pesada” e “Linha Direta”) e vendi os direitos de filmagem de “Os mercadores da noite” para Hollywood.

Desde que teclei a primeira frase de “Os mercadores...” até hoje, já se passaram 24 anos.

Nunca, nem por um dia sequer, deixei de acompanhar o mercado financeiro, de ler e escrever sobre ele. A “Rapina”, “Mercadores”, e “Mkamba”, se sucederam “O Terceiro Templo” (um não-ficção sobre o mercado de petróleo) e “1929” (no qual conto a história do crash daquele ano e da Grande Depressão), em meio a livros sobre desastres aéreos e outros assuntos.

É esse cara que quer escrever para vocês todas as semanas, falando do mercado e dos eventos e pessoas que o influenciam.

Um abraço,

Ivan Sant’Anna



#acoes #opcoes
Expandir   Gostei
 5
   Não gostei
 0
Ali Baba
14/05/2017
10:52:46
Assinante Oceans14
Muito boa a história do cara
Gostei
 1
   Não gostei
 0
Malandro
14/05/2017
11:37:03
Assinante Oceans14
Tava vendo os BDIs da época no topo de 71 Banco do Brasil valia quase 7Bi dolares, voltou a esse patamar só no fim da década de 90.

Consistente acima desse valor só a partir de 2004. :o
Gostei
 0
   Não gostei
 0
ronlamp
14/05/2017
15:18:40
Taí um cara calejado, que pode falar de mercado.
Gostei
 2
   Não gostei
 0
Odonto
15/05/2017
22:59:32
Li Os mercadores da noite,é um livro legal
Gostei
 0
   Não gostei
 0