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Estou lendo-trecho

06/02/2018 13:37:16
O Ciro é um grande demagogo. O Itamar é uma pessoa de caráter, o Ciro é mais duvidoso, porque é oportunista, não no sentido do Itamar, de aproveitar a oportunidade. O Ciro cria, ele faz declarações que não são verdadeiras, finge que sabe das coisas. Na verdade é mais irresponsável [do que oportunista]. Mas tem uma boa retórica, então neste momento está excitado. Espero que o país não se excite junto com ele.

Cardoso, Fernando Henrique. Diários da presidência — volume 2 (1997-1998) (Locais do Kindle 11862-11865). Companhia das Letras. Edição do Kindle.

#economia
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encostado
06/02/2018
13:39:23
Assinante Oceans14
Faz sentido.
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Atlético
06/02/2018
13:50:16
Assinante Oceans14
nosso presidonto já deixou a dica: "meu governo é um semipresidencialismo"
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encostado
06/02/2018
14:24:44
Assinante Oceans14
Afinal ele é um semi-presidente.
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Will
06/02/2018
16:06:16
Ciro = bosta

Vampirão = lugar no Olimpo
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Odonto
06/02/2018
16:21:26
Crise Russa,agosto de 1998

Voltei para encontrar o Malan, o Paulo Paiva, o Pedro Parente, o Martus, o Clóvis, e tomar decisões sobre o dia de amanhã. Estou muito preocupado.Falei pelo telefone com Gustavo Franco, que estava um pouco mais animado com o resultado de hoje das bolsas na Ásia e na Europa Aqui e nos Estados Unidos é feriado, lá Dia do Trabalho, aqui da Independência. Minha conversa com o pessoal do Malan foi no sentido de cortar mais o orçamento.

Essa conversa está cansativa, desesperadora. Eu encontrei o Joseph Safra na exposição no Itamaraty. Ele quer falar comigo, pedi que viesse aqui. Veio almoçar, estava extremamente pessimista, disse que não adianta mais aumentar juros, existe um pânico sem nenhuma razão objetiva, não há erro de nossa parte, mas há um pavor, e temos que tomar alguma medida para evitar que se remeta dinheiro para fora. Todo mundo está remetendo tudo que pode, porque há a sensação de que vamos centralizar o câmbio.

Ele próprio sugeriu que criássemos um imposto de 20% no primeiro mês para as remessas ao exterior, que fosse decrescendo 1% mês a mês. Ele é banqueiro. Disse que as ações do banco deles nos Estados Unidos, o Republic New York,18 caíram 50%, e que isso é assim em geral. Que as ações das telefônicas caíram muito e que há muita dificuldade para a renegociação de papéis. Todo mundo espera, portanto, um aperto grande. Foi o que ele me disse, e olha que ele é calmíssimo. Safra acha que devo falar com Clinton, que a única saída seria um sinal americano, o que é verdadeiro. Eu não podia abrir todo o jogo com ele, mas acho bom ter conversas com o Fed [Federal Reserve]. Podíamos fazer um swap com os C-bonds, títulos da nossa dívida. Transmiti tudo isso ao Pedro Malan, que ficou aflito, disse que vai se informar e falar com o Stanley Fischer, do Fundo Monetário, depois me dirá alguma coisa.

Falei com o Mendonça de Barros e com André. Ambos são favoráveis à centralização do câmbio já, enquanto temos boas reservas. André me disse que acha que o Tintim [Demósthenes Pinho Neto], que mexe com câmbio no Banco Central,também é favorável e que o próprio Gustavo Franco vai mais nessa direção. Já o Chico Lopes, não. Chico quer resistir ou deixar [o câmbio] flutuar. André acha que flutuar agora seria um desastre. Eu também acho.

A análise do Tobin é para situações normais, mas flutuar a moeda em tempo de crise seria mesmo desastrado. Enfim, grande tensão, estamos vivendo dias de muita preocupação, pode ir tudo por água a baixo a partir do nada. A situação no Brasil não indica falta de controle, é simplesmente o reflexo da crise mundial, e o pânico se deu porque temos déficit de 7%.21 Nas contas correntes é de 3,5%, o que não é nada. Segundo [o Tratado de] Maastricht, o teto de dívida nas contas correntes [dos países da União Europeia] deve ser de 3%. É muito mais pânico mesmo.

E já sabemos o que acontece quando bate o pânico: um comportamento de manada, de horda. Enfim, é mais uma crise no mundo, e desta vez para valer. HOJE É QUARTA-FEIRA, DIA 9 DE SETEMBRO. O dia de ontem foi um pouco mais calmo. De manhã Malan fez a apresentação das medidas de corte orçamentário. Não pude assistir ao que ele disse, mas ele sempre fala direito. O efeito foi muito menos forte do que se imaginava, porque a Bolsa de São Paulo e as bolsas do mundo, na ignorância dos processos reais, querem mais sangue. Verdade que há promessa de corte de 4 bilhões. Mal sabem eles que não há mais onde cortar.

Na verdade trata-se de um gesto que custa caro, já se viu que não tem efeito prático maior. Há um efeito na economia real, não na economia global, mas para o governo é negativo. Esse é o preço da nossa política de valorização do real. Não adianta chorar o leite derramado. Existe essa circularidade: o mercado acredita que o governo está na gastança e, na verdade, o que está havendo é uma supervalorização de juros. O governo corta, corta, corta, e isso não resolve, não se consegue estabilizar. Somos obrigados, de novo, a subir os juros. É o velho sistema capitalista em ação. O capital financeiro sugando o que pode. E nós tentando brigar para ver se avançamos na economia real. Apesar disso, o dia de ontem foi um pouco melhor.

Beto Mendonça fez a apresentação e eu fiz o discurso sobre as medidas para a exportação, que são boas e são fruto de um ano de trabalho. Assim como ocorreu com o Fórum Nacional da Agricultura, tratamos dos 55 principais ramos exportadores do Brasil. Estamos realmente organizando o Estado. Mas a crise está aí.

Cardoso, Fernando Henrique. Diários da presidência — volume 2 (1997-1998) (Locais do Kindle 20933-20934). Companhia das Letras. Edição do Kindle.











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Odonto
06/02/2018
16:30:36
As bolsas, no exterior, em Nova York, subiram, porque o [Alan] Greenspan disse que não ficaria impassível diante da crise mundial. Isso foi entendido como se ele fosse diminuir a taxa de juros. A bolsa de Nova York teve uma forte alta. A do Brasil foi patinando, acabou 0 a 0,24 em função dessa onda de pessimismo que insiste em que o governo não foi suficientemente duro nos cortes. Imagine, o que mais eles queriam? Acabo de ver na televisão que as bolsas da Ásia caíram em média 1%, as da Europa estão caindo 1%, nos Estados Unidos não se sabe ainda. Eliana Cardoso,25 que é muito ácida, fez um comentário correto. Disse que é um equívoco comparar a situação do Brasil com outros países, mesmo com os da América Latina, porque nossa base tributária é 30% do PIB,26 enquanto nos outros países é 10%, 15%.

Ou seja,o Estado brasileiro tem capacidade de pagamento. Há um pânico sem base na realidade, todo mundo sabe disso, eu pelo menos sei, mas criou-se essa onda, em parte por causa do próprio governo, que ficou no nhe-nhe-nhem de que temos um problema fiscal grave. Temos um problema cambial sério e o problema de taxa de juros, que acompanha isso, leva ao nosso endividamento. Essa é a armadilha que precisamos desarmar, só que não podemos desarmá-la neste momento [de crise mundial].

O Serra me telefonou ontem para dizer que ele não concorda com os cortes na Saúde, porque ele terá que cortar dinheiro dos hospitais. Disse que não vai criar nenhum caso, mas que a partir de 4 de outubro está fora [do governo]. Fiquei indignado: “Serra, o Brasil está desmoronando e você está pensando no seu orçamento? E o orçamento geral? Aliás, nós preservamos Saúde e Educação. Será que você não percebe que há sinais de crise e que não é momento para isso?”. Olha, mesmo que ele não venha a cumprir essa “ameaça” — entre aspas —, me deixou realmente… não sei se furioso ou extremamente desgostoso e amargo. Serra põe o problema dele à frente de qualquer coisa. Ontem não era dia para dar uma notícia dessas pelo telefone, não era o dia para ter uma reação. No fundo é a mesma história de sempre, a desavença dele com a equipe econômica.

Chamei o Vilmar aqui para desabafar e disse: “Olha, Vilmar, o Serra está fazendo uma boa gestão no Ministério da Saúde, mas esse voluntarismo, que só vê o interesse dele, é terrível. Claro, ele vai dizer tudo que eu sei, que essa medida não vai adiantar nada. Não vai, mas fazer o que então? Deixar os dólares caírem fora?”. Bom, o fato é que a fuga de dólares diminuiu ontem, perdemos quase 500 milhões, comparados com os 2,6 bilhões da sexta-feira. Tomara que hoje a gente possa avançar um pouco mais nessa direção. Enquanto isso, as eleições vão mornas, continua tudo igual, ontem cheguei a 50% e a uma diferença de 16 pontos, somados todos os demais.

É até perigoso estar hoje num patamar tão elevado assim. É preciso ver como a gente leva isso até o dia 4 [de outubro], dia das eleições. Vou ter que tomar medidas de mais profundidade na política econômica. Claro, já estou inclinado nessa direção, mas não é assim, no calor da crise, nem com ameaças de demissão. HOJE É 10 DE SETEMBRO, QUINTA-FEIRA. Ontem recebi uma carta do Serra cheia de números, dados, das dificuldades que o Ministério da Saúde vai enfrentar por causa das decisões de controle fiscal e dizendo que eu havia me comprometido, por escrito e espontaneamente, a ajudar as áreas da Saúde. Disse que não queria criar nenhum embaraço e deixava a meu critério o momento de ir embora. Respondi, por escrito também, que ele não precisava me recordar de nada e que nunca ninguém tinha tido tanta verba na Saúde quanto ele, graças ao apoio total que eu lhe dava, contra tudo e contra todos. E que eu não fazia cortes porque queria, aliás preferiria não fazer e que tentaríamos cortar o menos possível, mas que diante das circunstâncias eu não tinha alternativa. Ninguém havia ainda me mostrado outra saída, nem mesmo aqueles que pensam do mesmo jeito que ele.

Cardoso, Fernando Henrique. Diários da presidência — volume 2 (1997-1998) (Locais do Kindle 20970-20972). Companhia das Letras. Edição do Kindle.









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Odonto
06/02/2018
16:39:04
Quis me referir aqui ao Mendonça e ao André (André pensa um pouco diferente). Não sei também o que ele, Serra, pensa, se quer que o câmbio flutue ou não. Acrescentei que a flutuação do câmbio [na crise] dá em Indonésia, o controle de câmbio dá em Malásia e que estamos tentando evitar Malásia e Indonésia, e, como não me dão nenhuma alternativa, achei melhor fazer um ajuste. E disse que eu esperava de um amigo e de um ministro que pelo menos não fizesse em público o que ele já tinha feito antes, colocar crítica nos jornais neste momento delicado.

Nem me referi ao pedido de demissão dele, passei batido. O dia foi tenso outra vez, houve fuga de dólares, menor do que na sexta-feira, cerca de 1 bilhão, falei com quem pude, com Mendonça, Malan, tentei examinar a situação com o Beto Mendonça, com o Clóvis. Ninguém sabe muito bem o que fazer: pular de trincheira em trincheira, mas qual será a última trincheira? Estamos passando por um dos momentos mais difíceis do governo.

Cardoso, Fernando Henrique. Diários da presidência — volume 2 (1997-1998) (Locais do Kindle 20996-20998). Companhia das Letras. Edição do Kindle.
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Malandro
06/02/2018
19:22:50
Assinante Oceans14
Muito bom
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raffi
07/02/2018
07:10:41
"Ele próprio sugeriu que criássemos um imposto de 20% no primeiro mês para as remessas ao exterior, "

Veja se não é um fdp
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