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Escrito por Ali Baba    01/03/2018 23:06:09

O Poder da Aloprada


Há trinta e três anos tomava meu primeiro esporro de um estranho.

Havia ingressado na Escola Preparatória de Cadetes do Exército e, aos quinze anos de idade, era militar, com todas as prerrogativas e obrigações e, aparentemente, havia me esquecido de alguma destas.
Não me lembro se os metais da farda estavam sujos ou o sapato insuficientemente engraxado, mas me lembro do sangue subindo à face, um formigamento tomando conta do corpo e a goela insistindo em engolir em seco à medida que um veterano, num discurso de cinco minutos, me convencia, sem sombra de dúvidas, que eu era um merda.

Aquela noite foi a mais solitária da minha ainda curta existência. Só pensava na minha família e em como meu pai ficaria desapontado se soubesse dos meus fracassos.

As semanas foram passando e vi que o tal veterano dominara a arte de passar descompostura e sentia um prazer sádico em ver o “bicho” (novato) derreter emocionalmente ao som da sua voz. Eu não era um merda, era apenas mais um alvo para o recalque alheio.

E assim fui me fortalecendo naquele ambiente onde os fracos não tinham chance.

Foi nesse meio que conheci os primeiros líderes de verdade.

Alguns veteranos e oficiais eram semelhantes ao exemplo acima, mas,  havia uma casta de militares que simplesmente flutuava sobre os demais.

Apesar de terem patentes e idades diferentes eu conseguia, ainda de forma embrionária, identificar traços comuns nessas pessoas. Eram exemplos de conduta. Homens claramente de bem. Ao encará-los nos olhos via-se que não havia um grama de interesse pessoal na sua alma. Amavam o Brasil acima de tudo, e logo em seguida amavam o Exército de Caxias. Faziam-no de forma serena e firme, não afetadamente. Nós, imbuídos dos sonhos de glória reservados aos jovens, morreríamos felizes por aqueles homens em qualquer campo de batalha. Hoje, tenho o orgulho de ver nos olhos de alguns dos meus irmãos de arma de outrora a mesma limpeza. Fé na missão!

A Aloprada Relâmpago

Normalmente falavam pouco, e quando o faziam, eram escutados por subordinados e superiores. Dificilmente se alteravam, mas quando faziam-no...
A terra tremia, e o eco daquelas vozes tonitroantes reverberava nas paredes da escola por um tempo que parecia infinito.

Raros elogios (na frente da tropa) e raros esporros (em particular).

Não me lembro de um desses homens gritando com um indivíduo na frente dos demais. O aluno era chamado para uma "reunião", onde seus pecados seriam expostos e o castigo viria sumário.

Os raros elogios, por sua vez, eram endereçados a um indivíduo ou tropa específica, na frente de todos os outros, tornando-os alvo de inveja e admiração pelo restante.

A Aloprada Master

Esses oficiais haviam dominado a arte de liderar homens. Como dizia-se na época “a palavra convence, o exemplo arrasta e o cacete empurra”.

Uma das suas valiosíssimas ferramentas era a a arte de aloprar na medida certa e no tempo certo.

Modestia à parte, com o passar dos anos, adquiri tal ferramenta e a domino bem, embora intuitivamente.

Ontem aconteceu...dia 28/02/2018.

Eu e meu irmão sempre trabalhamos com navegação. Uma grande empresa de reciclagem, dessas que exportam milhões de dólares por mês, nos procurou para que discutíssemos a possibilidade de trabalhar grandes equipamentos que haviam servido à indústria do petróleo offshore.

Levantei minha gorda derrière e sai de Valinhos com destino a São Paulo. Meu irmão veio de Salvador. Nos encontramos em Cumbica e seguimos para a reunião, marcada para às 13:00h.

O cara nos deu um xarope de 4 horas! Acabei aturando isso tudo porque o intermediário que arranjou o encontro estava lá, era gente muito boa e insistiu para que esperássemos.

Então, levantei e fui embora. O cavalheiro da reunião estava chegando de táxi e o pessoal pedindo pelo amor de Deus para eu ficar. Dei uma aloprada master e metralhei:

- Se esse FDP chegar com um milhão para me dar na mala daquele carro, eu não quero negócio com ele.

Entrei no Uber e fui embora.

Hoje o cara me ligou. Manso. Pedindo uma reunião na quarta-feira e adiantando que nao vai se atrasar.

Pobres e ricos tem as mesmas 24 horas por dia. Não há dinheiro que compre um único minuto a mais. Atrasos são imperdoáveis. Uma mostra clara de falta de respeito.

Minha aloprada não foi calculada, mas, analisando em restrospecto, foi perfeitamente colocada. Esses caras muito poderosos devem receber dezenas de solicitações de negócios e parcerias, e estão acostumados a um séquito de puxa-sacos. Quando eu aloprei daquele jeito, me destaquei da multidão.

Business mode on, baby!

Tenho certeza que doravante trataremos dos negócios com vigor renovado e respeito mútuo.

Já fiz isso com chefes, família, clientes e potenciais clientes, “autoridades” e atendentes de aeroporto (foi meu pior resultado, a infeliz além de me tratar mal, quase me fez perder o vôo. LATAM nunca mais).

Lembre-se, uma aloprada deve ser rara, quase bissexta, senão é só destempero. Deve ser curta, senão é histerismo. Deve ser natural, senão você é apenas um psicopata. Deve cair como um raio e paralisar a vítima, porque você não quer discussões. E deve ser por um bom motivo, senão você é injusto, e ninguém segue os injustos em batalha por livre e espontânea vontade.

Não tente ser o que nao é. Civilidade e educação são a regra, mas se um FDP atrasar quatro horas, manda para aquele lugar. Se o resultado não for positivo, pelo menos desopila o fígado.

Abcs,

Ali Aloprando Baba




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Comentários


md5
01/03/2018
23:36:04
Assinante Oceans14
Boa... rsss

"Seu tempo eh mais valioso que o meu?"
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Ali Baba
02/03/2018
09:56:48
Assinante Oceans14
Exatamente isso. Claro, foi o momento. Existem outros gatilhos que me fazem perder a paciencia. Cada um tem os seus. Se dosada corretamente, essa "explosao" pode ser benefica.
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andremartins70
02/03/2018
10:11:39
CIABA! ALOPROU! KKKKKK
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Ali Baba
02/03/2018
10:18:09
Assinante Oceans14
Bem-vindo Luis!
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Zeitona
02/03/2018
11:10:50
Assinante Oceans14
Muito bom!
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CVCLETO
02/03/2018
11:31:37
Excelente guerreiro. Muita saudade da casa rosada. Grande escola de vida. Grande abraço! Selva!
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bell212
02/03/2018
18:02:49
Muito obrigado!
Narrativa que prende e torna o leitor um aliado seu. Texto permeado, nas entrelinhas, de ensinamentos e princípios.
Voce conseguiu, sintetizar os atributos necessários a uma aloprada efetiva; arte pra poucos, refiro-me ao poder de síntese e à fina calibragem do destempero.
Conte-nos o episódio Latam.
Saúde e paz!
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Ali Baba
02/03/2018
21:01:51
Assinante Oceans14
Cleto! Meu companheiro de Colegio Militar e Espcex! Selva!
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Ali Baba
02/03/2018
21:02:28
Assinante Oceans14
obrigado a todos pelos comentarios.
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Ali Baba
02/03/2018
21:12:58
Assinante Oceans14
@bell212 ... bom, foi uma aloprada com a menina do check in que me fez ir a policia federal, por causa de um papel para minha filha menor que iria me acompanhar e o policial deu risada, dizendo que ela so podia estar de brincadeira. Quando voltei ela comecou a insistir em que tinha algo errado ate me fazer o sangue ferver (detesto esses generais da portaria que tem o poder sobre seu destino por um minuto e se comprazem em tortura-lo com isso). Eu dei uma rosnada "minha filha! vc esta me fazendo perder tempo por algo que a pf ja disse que esta correto!" a infeliz nao se abalou, estava me provocando e queria que eu perdesse a estribeira, me disse que nao era minha filha e que se eu saisse da linha seria atendido por outro atendente (uma fila enorme, claro). A minha filha (de verdade) pedia pelo amor de Deus para eu deixar pra la, pq senao perderiamos o voo. A puta foi la dentro conferir com a pf e depois veio dizer que so estava fazendo o trabalho dela. Quando peguei o papel do embarque falei "o carrasco de Hitler tambem so fazia o trabalho dele, mas pelo menos sabia o seu oficio". Acho que se o ambiente fosse outro a gente tinha saido na mao. Menina abusada e mal criada.
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Leone
07/03/2018
11:23:17
Tá bom,.. sem Michael Douglas - Um dia de fúria, certo?! rsrs
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Ali Baba
07/03/2018
22:25:29
Assinante Oceans14
Outro dia vi um meme daquele filme “quanto mais velho fico, mais eu entendo esse cara”. Achei fora de série
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