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Escrito por rfalci    08/11/2017 17:28:48

Alimentos orgânicos: ciência, ideologia ou modismo?


Colaborou Dr. Renato Falci Júnior, médico da Faculdade de Medicina da USP.


Decidi escrever esse artigo quando, num domingo, enquanto comprava temperos frescos no supermercado, uma senhora gentil e insistentemente veio ao meu lado para convencer-me, a qualquer custo, a trocar minhas compras por “produtos orgânicos”.  Depois de gastar um pouco de saliva para me livrar daquela situação – tive que falar que adorava comer agrotóxicos (aliás termo péssimo para os defensivos agrícolas) - fiquei me perguntando por que haveria de pagar mais por vegetais muito mais feios e atrofiados. Resolvi usar a bagagem científica e lógica que tenho para estudar o assunto, pois odeio argumentar de forma emocional ou repetir coisas que escuto, que geralmente chegam carregadas de ideologia. 

Existem vários critérios para definir um alimento como orgânico e os burocratas já estão se mobilizando para criar selos, regras, controles e mais controles. Genericamente falando um alimento orgânico não deve receber adubação química (sintética), deve fazer o controle de pragas com métodos mecânicos, físicos e biológicos e deve ter mínimo impacto ambiental.               

Inicialmente devemos entender este panorama: aproximadamente metade da população mundial está preocupada se terá algo para comer na próxima refeição, pouco se importando qual será o cardápio. Da outra metade, a imensa maioria está preocupada com outros assuntos diferentes do qual tenha sido o cardápio de adubos que o pé de alface de sua salada recebeu. Portanto, quando falamos de alimentos orgânicos estamos restritos a uma mínima parcela da população que pouco se importa em pagar de três a dez vezes mais por um produto alimentício, mesmo que seu benefício seja apenas emocional. Neste contexto, gostaria de responder neste texto quatro perguntas. 

1 – Alimentos orgânicos têm maior valor nutricional?

Não. Grandes revisões sistematizadas de toda a literatura científica publicada sobre o assuntos concluem com muita clareza a ausência de benefícios nutricionais dos alimentos orgânicos, sendo eles tão nutritivos quanto os alimentos de produção habitual. 

2 – A ausência do uso de fertilizantes sintéticos pode trazer algum benefício à saúde?

Novamente a resposta é não. Grandes estudos não mostram benefício para os orgânicos. Devemos lembrar que os adubos e pesticidas usados na dose correta são amplamente testados e regulamentados antes de serem comercializados e, portanto, são seguros. Os orgânicos, por usarem controle biológico, também estão sujeitos a potencial toxicidade desses agentes, como recentemente ocorreu na Europa com a famosa contaminação de pepino cultivados em estufas. Risco biológico existe e é uma realidade. 

3 – A produção de orgânicos causa menos impacto ambiental? 

Essa é uma resposta contaminada por uma lista enorme de ideologias, de forma que não posso respondê-la de forma objetiva sem discorrer sobre controle de governos, plano de governo mundial, a falácia do aquecimento global entre outros assuntos que servem de alto-falante ideológico. No entanto,devemos considerar que todo ser vivo causa impacto na natureza e que o ser humano está no topo da cadeia alimentar e portanto se alimenta de outros seres vivos. Deste raciocínio deriva a quarta pergunta.

4 – Seria possível alimentar o mundo com orgânicos?

Não. Questiono inclusive se existe orgânico genuíno num país como o nosso onde pode chover mais de 300 mm em um único mês e onde o calor e a umidade são os ingredientes perfeitos para o crescimento de pragas, fungos e ervas daninhas. 

Concluindo,  entendo que os orgânicos representam um diminuto mercado (embora em expansão) para poucos, que não se preocupam com o custo da alimentação. São geralmente mais caros, têm pior aspecto visual e não apresentam nenhum benefício nutricional cientificamente comprovado.  Como os critérios ainda não são bem padronizados, questiono se, muitas vezes, o consumidor de orgânicos está realmente consumindo o que imagina estar consumindo. 

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