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Escrito por ali baba    06/06/2017 10:41:24

Venda seu peixe


Em um distrito pobre no Norte do Brasil, nos anos 70, um garoto que vivera da caridade alheia e de bicos aqui e acolá, aprendeu a pescar nas margens do rio Guamá e não precisou mais da bondade dos outros. Tinha o que comer e até trocava o excedente por itens que a patroa precisava. Foi assim, ao trocar um belo tambaqui por uma panela no armazém da vila, que o dono, num sotaque libanês acentuado indagou “Zé, esse beixe de vucê é muito bom, burguê vucê não vende ele?”, e assim desencadeou uma odisséia empreendedora que alçaria aquele jovem humilde à estatura de um titã.

A parábola original diz que você deve ensinar o homem a pescar, e isso saciará a fome dele e da família para sempre.  Mas se ao invés de mendigar uma tainha ou saber pescar, esse homem (doravante vamos chamá-lo carinhosamente de Zé), aprendesse a vender peixe? Talvez ele nem precisasse pescar mais, porque dezenas, talvez centenas de pessoas, esperassem seu pescado todos os dias. 

Posso imaginar o Zé com seu isopor na garupa de uma bicicleta velha percorrendo as ruelas da cidadezinha, anunciando a plenos pulmões “olha o peixe fresco, vizinha!”, sorriso sempre simpático e desdentado. E, graças ao Zé, os pescadores agora tinham como escoar seu produto, e ele, ao invés de passar a madrugada pescando, chegava às 06:00 h da matina na praia, pegava o produto com os ex-companheiros de ofício (em consignação, é claro!), e levava para a cidade. Até às 11:00 h já estava tudo vendido.

Um dia, refletindo sobre as coisas que peixeiros e pescadores refletem, o Zé teve uma idéia...   “E se eu conseguisse pegar peixe de mais gente e vender para mais gente?” e então começou a elucubrar uma maneira de investir suas parcas economias em algo melhor que um jogo de sofá novo para o casebre.

Os pescadores da redondeza mais de uma vez já haviam perguntado se ele não teria como pegar o peixe deles também, mas a praia ficava longe, e mesmo se conseguisse, seria peixe demais para uma cidade tão pequena...a não ser que vendesse na cidade ao lado, que era maior, mas ficava a uns 20 quilômetros. E foi assim que o Zé se tornou o orgulhoso proprietário de uma Kombi 1971, que permitia que ele pegasse todo o peixe das duas praias até às 06:30 e já tivesse vendido tudo até às 10:30.

Após uns dez meses de Kombi e as dores de cabeça que isso acarretava, conseguiu comprar um caminhãozinho baú, onde adaptou um freezer que ele e seu filho desenharam, projetaram e construíram. Não era nenhum primor, mas mantinha o peixe bem frio e fresco por mais tempo.

Foi então que ele esbarrou num novo problema: os guardinhas da cidade que ficavam felizes em receber um robalo bonito na sexta-feira e deixavam-no em paz no resto da semana, começaram a aumentar seu “pedágio”. O guarda João, velha guarda com mais de trinta anos de serviço prestados à corporação, ficou com pena e um dia disse “sabe Zé, todo mundo gostava de você quando era o mendigo da cidade, e todo mundo ficou feliz quando se tornou pescador, mas você está com mais dinheiro que muitos que costumavam te dar uns trocados pra cortar uma grama ou lavar um carro. Isso está incomodando as pessoas. Se eu fosse você, arrumava um jeito de legalizar seu negócio, aí essa gente invejosa para de atormentar”.

Aquilo o entristeceu muito. Por que as pessoas eram dessa maneira, e por que algum governo achava que ele devia satisfação e dinheiro para poder tocar sua vida? Por um tempo ele pensou em voltar a pescar e deixar aquela gente toda comprar peixe ruim e caro no supermercado. Mas ele já havia sido mordido pelo Aedes Ambiciosus, o inseto que faz o mundo andar.

Conversou com sua esposa e seu filho, que era o único membro da família capaz de ler e escrever.  Uma professora do guri iria ajudá-lo a regularizar seu comércio. Aquela decisão o levaria a questionar a própria sanidade muitas vezes num futuro bastante próximo. Ele passaria por momentos em que desejaria ser apenas o pescador ou mesmo o mendigo da cidade. Aquela gente do governo era o capeta na terra. Mas ele já havia começado, agora iria até o final.

Foi assim que após um ano e meio, ele finalmente conseguiu regularizar seu empreendimento, mesmo após quase quebrar algumas vezes por causa de multas e apreensões enquanto ainda estava no processo de legalização. Mas Deus era com ele, essa gente dos infernos não iria dobrá-lo.
Aos poucos aumentou a clientela e passou a atender mais cidades e mais pescadores. Agora tinha três caminhões e alguns empregados. Tinha até um contador e um advogado que o auxiliavam. Mas esbarrava no suprimento de peixe que tinha chegado no limite. Como aumentar isso? Como crescer? Precisava de mais peixe se quisesse atender a capital.
Seu contador o colocou em contato com o pessoal do banco que topou financiar 50% da aquisição de um barco de pesca seminovo. E apesar das dores-de-cabeça que a tripulação dava, agora ele não era mais um simples pescador, mas um ótimo solucionador de problemas. E  foi assim que aquele barco deu lugar a mais três traineiras grandes e, dentro de dois anos, começou a produção de camarão em cativeiro no mar.

Hoje o Zé é o maior exportador brasileiro de camarão e peixe processado, e ainda serve o mercado nacional.

História baseada em fatos reais.

Se alguém não tivesse incentivado o Zé a vender peixe, teríamos menos uns 1500 empregos diretos e algumas centenas de milhões de dólares a menos na balança comercial brasileira.
Essa história se repete com frequência por todos os rincões do nosso país. Gente que se recusou a tolerar a vida que tinham e deram seu sangue por mais, apesar do ambiente hostil ao sucesso que temos no Brasil.

Como já postei anteriormente, é nítido na história do Zé do Peixe a perseverança, a paciência e outros atributos comuns a um empreendedor. Mas se alguém não tivesse incentivado ele a vender o primeiro peixe, todos estaríamos mais pobres hoje.
Você não precisa fazer cursos de venda ou comprar livros com fórmulas testadas sobre o assunto. Sem dúvida ajuda, um bom curso com um vendedor daqueles que conseguem vender muleta pra atleta ou um bom livro com algumas dicas mas, nada substitui a boa e velha cara-de-pau. “Oi vizinha, olha como essas frutas estão lindas, e com precinho especial só hoje!”. Se você consegue pronunciar uma variação dessa frase, ainda que gaguejando, tem um dos principais requisitos para ficar rico.

Aprenda a vender, e você nunca mais terá de pescar!

Forte abraço,

Ali Baba

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