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Escrito por rfalci    03/06/2017 22:01:17

Afinal, quando poderei aposentar?


Certamente esta é uma pergunta que todo poupador já se fez. Até aqueles que falam que não se importam com seus resultados. 


Antes de falar de números, vamos definir alguns conceitos para deixar o artigo menos abstrato. Primeiro, a meta é obter um rendimento passivo (ou remuneração do capital) acima da inflação que pague as despesas do poupador. Na linguagem popular equivale ao famoso jargão “viver de renda”. Segundo, aposentar não quer dizer colocar o pijama ou ficar jogando dominó na praça, mas literalmente comprar sua liberdade financeira. Não importa o que fará quando atingir essa situação, que pode variar desde parar de trabalhar, reduzir a jornada, ou apenas deixar a língua mais solta com o chefe ou até mesmo não mudar nada na vida. Mas, como já diziam os filósofos,  a liberdade é dada pelas possibilidades que se tem e não pelo que se tem propriamente dito. 

Agora vamos aos números. Já adianto que existem várias formas de calcular esse número, cada uma com suas vantagens e defeitos e – acredite – tem até gente que defende a ideia que não se deve ter um número. Como economia é derivada de comportamento humano e, nos países com estado gigantesco como o nosso, da política, ela carrega um belo grau de imprevisibilidade. Portanto, para recorrermos a algum cálculo financeiro, precisamos analisar o passado, ainda mais somando o fato do ser humano não ter recebido o dom de prever o futuro. Por se tratar de uma análise baseada em fatos passados, tem seu viés, que é conhecido e pode ser controlado. 

Quando analisamos 200 anos de histórico do mercado de capitais americano em dólar deflacionado, vemos grosseiramente que quem investiu em ações (considerando índice nesta conta) obteve um rendimento anual médio de 6% enquanto que quem o fez em títulos chegou próximos aos 2% anual médio. Portanto não é difícil imaginar que um investidor amador com uma carteira diversificada consiga algo em torno de 3 a 4% de ganho real ao ano, em média, na economia america. Temos, com isso, um bom ponto de partida para o nosso cálculo. No entanto, precisamos lembrar que vivemos no Brasil, país onde provavelmente a maioria dos leitores mantém a maior parte de seus recursos. Neste país onde vivemos não temos histórico de 200 de nada no que se refere à economia. A bovespa é um feto quando comparada à bolsa de valores americana. Apenas para uma triste comparação, enquanto o famoso gráfico de Siegel mostra o histórico dos diferentes investimentos em 200 anos nos EUA, podemos lembrar da nossa realidade que, em um período mais curto, tivemos seis constituições, mais de 10 moedas, uma ditadura, vários governos socialista e uma tendência crônica ao descontrole inflacionário. Dessa forma, o que nos resta para análise numérica no Brasil são alguns poucos períodos de menor turbulência politico-econômica. Faço questão de usar este termo pois é impossível separar a politica da economia em um pais com um estado gigante. 

Por esse motivo escolhi avaliar 20 anos, de 1997 a 2016 como exemplo. Nesse período o IPCA variou 250% enquanto que o CDI variou 1750%, ou seja, 1500% acima da inflação. Mesma comparação nos últimos 10 anos dá uma diferença de 100% de vantagem da SELIC sobre a inflação medida pelo IPCA. Isso significa que, mesmo no período de SELIC mais baixa, a renda fixa no Brasil foi capaz de render em média 7% bruto ao ano acima da inflação. Não é à toa que muitos chamam o Brasil de “o país da renda fixa”. 

Com todos esses número, podemos inferir que usar o rendimento médio anual de 4% para cálculo da aposentadoria não é algo muito fora da realidade. Diante disso, agora basta usar uma planilha do tipo Excel e fazer as contas. Exemplo: Se poupar R$ 5.000,00 por mês por 35 anos, a uma taxa de 4% aa  acima da inflação, teremos R$ 4.568.654,68. Com esse valor, poderemos utilizar os mesmos 4% ao ano sem prejuízo do patrimônio principal, ou seja, gastar R$ 15.228,85 por mês. Se no exemplo o indivíduo ganhava 15 e guardava os 5, conclui-se que, guardando um terço do salário por 35 anos, conseguiria manter o padrão  com folga (pois na verdade vivia com 10 e guardava 5). Podemos refinar esse raciocínio, aceitando por exemplo o consumo de alguma porcentagem do patrimônio. Agora é uma questão de se divertir com números em frente às fórmulas financeiras do Excel. 

Para finalizar, gostaria de, objetivamente, listar algumas conclusões: 

1 – A liberdade financeira(aposentadoria) é factível para a maioria das pessoas. 

2 – Fazer planos baseado em fatos passados tem suas limitações, mas é o que existe. 

3 – Apesar desses número que se prestam como diretriz, o ideal é cada um avaliar seu desempenho e raciocionar com seus próprios números. Afinal, somos indivíduos com personalidades e habilidades únicas. 

4 – Não avaliar seus resultados pode servir como tratamento para ansiedade ou outros distúrbios, mas pode ter um preço muito caro. Portanto, avalie-se periodicamente.

5 – Diversificação é a única atitude que pode aumentar o grau de segurança para fatores imponderáveis. Vale a pena tê-la, mesmo que implique em perda de rentabilidade.

6 – Cuidados com imóveis. No histórico do Brasil seu valor acompanha o IPCA, portanto não gera riqueza. Além disso, temos despesas de manutenção e impostos que praticamente o confiscam em 40 anos (veja artigo sobre isso neste site).

7 – Lembre-se: mais velho mais líquido.

8 – Contrariando o jargão popular, renda fixa não parece mau negócio no Brasil.

9 – Lembre-se II: mais velho menos volatilidade: vai que o presidente é impedido justo no dia em que venderia as ações para pagar aquela cirurgia cara que salvou sua vida.

10 – Não se esqueça que, depois que inventaram a internet, investir na esquina ou do outro lado do mundo, exige praticamente o mesmo número de cliques no mouse. 

Boa sorte!

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