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Escrito por fogo    23/02/2017 11:02:16

Meritocracia e corporativismo


Você, Tício, estudou em uma boa faculdade, fez estágio em empresas de ponta, e acabou contratado no último período para uma grande empreiteira, corporação com braços em vários países e atividades diversas na área de construção e energia. Na primeira semana de adaptação, passa deslumbrado pela orientação de novos funcionários sobre a cultura da empresa, área de atuação, missão, visão e proposta de valor. Aprende sobre como a empresa valoriza funcionários que se empenham, se candidatem a trabalhar em outros países e dão o sangue para trazer retorno financeiro. Entende como a empresa investe em tecnologia, pesquisa e desenvolvimento de talentos para despontar na liderança tecnológica de sua área. Pensa, agora sim. Chega daqueles malditos comunistas da faculdade. Uma empresa capitalista não tem nada do que pintavam no centro docente. Nada de mal do século. Vou trabalhar, gerar valor, subir na carreira com meu talento.


Enquanto isso, seu extrovertido amigo Inácio, que entrou na empresa no mesmo processo seletivo, logo de início tem um foco diferente. Não gasta mais tempo que o necessário em funções técnicas. Vê mais valor em desenvolver relações interpessoais. Vai atrás de descobrir o que move as pessoas que tomam as decisões. Narcisista, busca sempre brilhar em seus feitos. "Tão importante quanto saber fazer, é fazer saber", ele pensa. Muitas vezes se guia não pelo que é melhor para a empresa, mas sim pelo que é melhor para seu time, seu chefe, sua divisão. "A corporação são as pessoas ao meu redor". Nunca assume projetos que possam prejudicar seu crescimento, mesmo que sejam cruciais. Cria uma teia de relacionamento complexa, e com o tempo começa a saber o que se passa por toda a corporação. Especialista em bastidores, nunca entra em uma reunião sem antes alinhar o pensamento nos corredores com os envolvidos. Cria inimigos, porém atua de forma cirúrgica os mantendo perto, ou minando sua influência. A medida que cresce na companhia, trás consigo sua rede de influência e talentos.

10 anos depois, quem vai estar mais preparado para assumir uma função de diretoria na empreiteira?

Somos um animal político, em um país com muita valorização do relacionamento interpessoal em detrimento do tecnocrata. Aqui, mais do que nunca, o capitalismo corporativo se impõem. Apesar estarmos em uma primavera capitalista no Brasil, não se engane. A meritocracia pura e simples não existe, nem aqui nem em lugar nenhum. Não quero com isso afirmar que um doutor em economia ou engenharia ficará sempre estagnado em uma empresa, que só tenha lugar em universidades ou centros de pesquisa (Veja o artigo Carreira em Y), ou que basta ter uma inteligência emocional diferenciada para subir na carreira. Tão pouco faço juízo de valor sobre o peso da meritocracia ou do tipo de capitalismo praticado na bananândia. Ensaio apenas entender que tipo de características uma empresa situada no Brasil busca em seus potenciais líderes, mesmo que estas características não sejam declaradas.

Obviamente, temos que buscar um equilíbrio entre Tício e Inácio, a depender do tipo de empresa, local de atuação e principais clientes. Porém entenda que, ao contrário do que a firma que você trabalha possa lhe dizer, ela pode estar buscando mais um Inácio do que um Tício. Fique alerta ao seu redor, sem perder a ternura jamais.

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