1. Home
  2. Artigos
  3. Negócios
  4. Empreendedorismo 101

Escrito por Ali Baba    09/02/2017 13:35:50

Empreendedorismo 101


Algumas pessoas que são do meu círculo de amizade me perguntam como se tornar empreendedores ou o que está dando dinheiro agora, ou me aparecem com idéias novas (não necessariamente inovadoras). Eu gosto bastante de escutar, principalmente esses assuntos, mas raramente vejo algo que acredite que possa dar certo.
Entenda, caro leitor, eu não tenho bola de cristal. O fato de achar que não vai dar certo, não tem relevância nenhuma no mundo real, mas, após décadas de erros até finalmente ter um acerto grande, eu tenho alguma experiência acumulada.
Normalmente eu me limito a escutar e emitir um frustrante “ah, legal!”. Isso porque como um diletante da análise da natureza humana, sei que a maioria das pessoas não quer escutar um conselho ou opinião sinceras, na verdade procuram apenas por suporte, apoio e palavras de admiração. Além disso, não quero desencorajar novos empreendedores dispostos a correr riscos. Para desencorajar basta o nosso ambiente de negócios e o governo, entre outros.
Mas nas raras ocasiões em que vejo alguém de quem gosto muito indo pelo caminho que considero equivocado, eu dou um toque. Então, caríssimo leitor, por amor fraternal a você que tanto nos prestigia, vou dar algumas dicas. Siga se achar conveniente.

João Direito é advogado. Um profissional liberal que pratica com afinco há vinte anos a advocacia no escritório que tem junto com sua esposa. Atingiu um certo conforto material. Tem um apartamento no Recreio dos Bandeirantes, mas não na praia. Tem um Corolla, mas o vizinho tem um Mercedes. Viaja uma vez por ano com a família para a Disney, mas com o dólar a R$3,11, só comprando a passagem (classe econômica) com muita antecedência, escolhendo um hotelzinho razoável em Orlando e planejando bem as despesas. Seus filhos estudam em boas escolas particulares, mas não dá para colocar naquelas escolas internacionais onde os filhos dos artistas estudam. Enfim, João saiu da merda, mas está longe do topo.
Qualquer um vindo de onde João veio, se daria por satisfeito. Metade dos seus amigos de infância ou morreu ou está na cadeia, enquanto a outra metade se vira como dá. Ele e o Walter são os únicos que sairam da comunidade. Os únicos que aos olhos de todos tiveram sucesso. Mas não aos seus próprios olhos. João advoga em causas trabalhistas para alguns empresários. Seus clientes que já viraram amigos convidam ele e a família para fins de semana nas ilhas de Angra em barcos majestosos. Conversam sobre investimentos e obras de arte. Discutem as melhores bebidas e hotéis de Paris e suas esposas andam sempre com roupas de grife. João sofre do que eu chamo de Pobreza Relativa.
Vendo aqueles caras que não são melhor que ele em absolutamente nada e arrotam a riqueza na sua cara, ele se sente deprimido. Sua esposa olha as jóias das amigas ricas com cobiça e João com desprezo, exatamente o oposto do que ele gostaria. Ou seja, trabalhou como um mouro e se sente uma titica de galinha. Na favela pelo menos ele tinha a felicidade dos ignorantes. Agora todo dia é ruim. Seu apartamento é ruim, seu carro ruim, sua viagem ruim, sua esposa fazendo a vida dele um inferno com mais cobranças ainda...
Então João começa a bolar um plano de escape. Ele é mais inteligente que aqueles caras de Angra, se eles conseguem, João consegue. Seu plano master é investir em reciclagem de baterias. Tem um amigo que tem um galpão em Belford Roxo e eles vão virar sócios. Em dois anos pegando baterias sucateadas a preço de banana e vendendo baterias recondicionadas vai ficar tão ou mais rico que aqueles pulhas. Vão ver só!
Bom, eu não entendo lhufas de bateria, e nem o João, mas comprar barato e vender caro é a chave da riqueza, não? Sim, mas...
Ah! Sempre tem esse maldito “mas...”
O fato é que João quer se afastar de tudo que representa a vida que ele leva. Não consegue ver como é feliz com o que conquistou e tem agora ódio figadal da carreira que fez e da vida que leva. Inconscientemente busca uma ruptura com tudo que isso representa e tudo que representa isso. Um negócio milagroso em um ramo completamente novo é a solução para todos os seus problemas, a resposta para todas as suas preces feitas quase com ódio, nas madrugadas insones causadas em parte por aquele ar condicionado chinês de 7500 BTU que não esfria nada no verão carioca, porque o de 12000 era muito caro e consumia demais.
Pois te digo que João está prestes a se ferrar.
O leitor deve estar se perguntando “como esse turco pode ter certeza? O cara vai ganhar as baterias e vai vender a preço de mercado. Ele vai é ficar rico!”
Simples, pacientíssimo leitor, analise comigo: Se João não obteve o sucesso que esperava após ter passado 4 anos numa faculdade e se dedicado 20 ininterruptos anos ao mesmo negócio, que domina no seu nicho, quais as chances dele ter sucesso num negócio que ele não conhece nada? Já parou para pensar que existem pessoas que se dedicaram a vida toda ao negócio das baterias? Sim, porque baterias para carro não foram inventadas anteontem. TODO RAMO TEM SEUS ESPECIALISTAS. Profissionais liberais tendem a esquecer constantemente disso. A chance de João por em risco seu patrimônio é gigante. Ele não conhece a concorrência, não conhece o mercado, não conhece a legislação específica e não conhece as pessoas do ramo. Vai quebrar a cara. Certeza.
Hmmm...e qual a saída para ele? Será que nosso herói terá que amargar uma vida de meias realizações e frustrações à mancheia? Não! Escuta o turco mais um pouco...
Há lugar e hora para sentimentos. Decisões de negócio e investimentos não estão nesse universo.
Às vezes pequenas mudanças de foco podem acarretar movimentos tectônicos. João tem mais de vinte anos de experiência na advocacia e se acostumou a escutar as velhas frases de sempre sobre a quantidade de advogados e falta de boas oportunidades no ramo, dominado por poucos escritórios de renome. Mas eu te digo que isso é CONVERSA FIADA, que as maiores chances de João enriquecer de verdade estão no Direito. Assim como para o médico estão na medicina, para o dentista na odontologia, e para o técnico de informática na computação. Nossas maiores, primeiras oportunidades, estão na nossa área. Tudo que precisamos fazer é sair um pouco da zona de conforto e olhar o mundo de um prisma diferente. E claro, trabalhar pra caramba, se preocupar muito e ter sorte.
Passamos décadas em bancos escolares sendo doutrinados e tendo a cabeça lavada para nos tornarmos empregados ou profissionais liberais. Toda essa programação mental tem um preço alto e a melhor maneira de dar o primeiro passo rumo ao mundo empresarial é dentro de algo que conheçamos bem. Depois as próximas empreitadas ficam mais fáceis e o couro mais grosso.
Não precisa necessariamente ser dentro da sua profissão, talvez um hobby ou uma atividade que venha praticando há alguns anos sejam a sua janela de oportunidade. Mas aí vem outros perigos que devo abordar em artigo futuro.
Nesse momento você deve estar se lembrando de alguém que abandonou uma carreira e obteve sucesso em algo completamente novo. É possível, só não é provável. Normalmente quando acontece o cara fica até famoso, de tão raro que é. É a exceção que confirma a regra.
Conhecer bem seu ramo é imprescindível para o sucesso. Então se aprofunde, seja curioso. E se quiser mesmo mudar, comece estudando sua nova área de interesse e fazendo novos contatos. Após algum tempo de dedicação e muitos contatos bons, talvez valha a pena tentar, mas nunca no ímpeto do momento ou por pura frustração.
Fique de olho para o nosso próximo artigo sobre empreendedorismo. Aqui no site você escuta de quem já passou por isso, não de supostos experts que estudaram cases em algum curso de negócios.

Boa sorte e perseveranca!

Ali Baba



Gostou do texto? Cadastre-se no site e começe a seguir o usuário Ali Baba. Sempre que ele postar um novo artigo, você será notificado.

Para ler outros textos do usuário Ali Baba, clique aqui.



Comentários


Ainda não existem comentários para este artigo.