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Escrito por Ali Baba    08/02/2017 12:57:31

Madrid, a Bela


Existem cidades belas à noite, existem as que são belas de dia, e existem aquelas poucas que conseguem ser belas sempre. Madrid está definitivamente nesse grupo. Pulsando de energia criativa e cultura boêmia, a capital espanhola é um deleite para os sentidos e para o intelecto. O nome é uma corruptela do árabe Madinat Mayriat e pode-se ver a marca deixada pelos mouros na sua arquitetura (embora não tanto quanto em Córdoba e em outras cidades), na comida e na música.
Eu aproveitei uma escala de retorno ao Brasil e decidi passar mais um dia na cidade. Não sabia exatamente o que encontraria e nem o que queria ver. Fiquei num bom hotel na região de Callao, onde me parecia que independente da escolha conseguiria alcançar tudo que me interessava ver a pé ou curtos trajetos de metrô e táxi. No final fiz tudo a pé e foi bom assim. As ruas estreitas, os detalhes das fachadas, os pequenos cafés, padarias, as lojinhas, as chocolaterias e os pequenos segredos da cidade se revelavam para mim.
Como o tempo era curto e eu não acredito em maratona turística, e sim em flanar pelos lugares que me apetecem ao mesmo tempo em que observo a fauna local, decidi que visitaria uma boa livraria, o palácio real e a biblioteca nacional, além de gastar algum tempo em restaurantes que me agradassem. 



Saguão do hotel Villa Reina - Arquivo Pessoal

A primeira parada foi na livraria Casa del Libro, na Gran Via. Eles têm um catálogo extenso, com títulos em inglês, francês e português, além, é claro, de um grande acervo em espanhol. Fica num belo prédio Belle Époque e está distribuída em três andares. Muito boa, mas ainda não era o que estava procurando.
Continuei minha busca e, na própria Plaza Callao encontrei mais duas, a FNAC e La Central. A FNAC parecia ser muito grande e bem montada, mas não os agraciei com a minha robusta presença, optei pela La Central. Que sábia decisão! Logo na entrada tem umas poucas estantes à esquerda que já demonstram a vocação eclética da livraria, enquanto ao lado direito tem um restaurante dentro da livraria. Não um café, uma starbucks ou algo do gênero...um restaurante! E ainda por cima, bom. Mas é nos outros três andares que a magia acontece. A única similar brasileira que teria um acervo de tal qualidade é a Da Vinci no Rio de Janeiro. Passei horas lá dentro e saí com dois títulos “How to Make a Spaceship” no original em inglês (estava quase comprando pelo kindle, mas preferi pagar um pouco a mais para comprar o livro físico ao mesmo tempo que prestigiava aquele livreiro), e o último romance do Carlos Ruiz Zafrón (que lerei no original em espanhol ha!). Aliás, para quem é familiar com a obra desse autor, essa livraria parece que saiu das páginas de um dos seus livros.
Após a livraria e uma salada no seu restaurante, ainda estava com fome e decidi comer no restaurante bem ao lado. Pedi as vieiras mais saborosas da minha vida e após um chá decidi retornar ao hotel para acordar cedinho e aproveitar o dia seguinte.
Fiz como planejado e acordei às 06:00. Tomei uma ducha quente e saí buscando um lugar para tomar o café da manhã, afinal, com tantas escolhas, por que comeria no hotel? Como os anglófonos colocariam, eu fui “spoiled by choice”. Quando se atravessa a Gran Via em direção a Callao e começa a vagar pelas ruelas e praças, as escolhas aparecem em profusão. Confeitarias, bares, pubs, padarias e restaurantes se esforçam para atrair os primeiros clientes do dia através de vitrines mostrando croissants, pães, doces e iguarías. Com todas essas opções, eu consegui entrar num ruinzinho...acontece às vezes. Na minha sanha exploratória eu sempre prefiro lugares que aparentem ter um caráter próprio e curioso, em detrimento de estabelecimentos que pareçam mais modernos. Eu sou inevitavelmente atraído pela provável história que vou encontrar lá dentro. Isso funciona muitíssimo bem para encontrar curiosidades, pequenas livrarias, lojas das mais inusitadas peças e setenta por cento das vezes funciona com restaurantes e afins, mas os outros 30...Bom, não me deixei abater por um café queimado e um pão insone e segui caminhando. Logo vi uma padaria de bom aspecto e cheia de gordas (preste sempre atenção nelas), não tinha errada, gorda gosta de comer bem. Dito e feito, café com leite bem feito e bem servido juntamente com uma generosa tostada de queso e voilá! Pronto para seguir.
Caminhei rumo ao palácio real, passando pelas ruas ainda vazias e comércio fechado. Adoro fazer isso. É uma hora mágica em que os malditos turistas (nós, caríssimo leitor, diferente da massa ignara, somos flaneur, nunca turistas!) não estão comprando tudo e poluindo o visual com suas silhuetas e fotografias irritantes, e as pessoas da cidade, aquelas que são de carne e osso ( em contraste com o turista típico, que parece feito de plástico) estão se aprontando para mais um dia de trabalho. Dá para ver como se comportam, perceber seu sofrimento e suas alegrias pelos olhares e rugas. Parecem em harmonia com a arquitetura da cidade, como se tivessem sido paridos pelos edifícios, saindo de suas paredes, janelas e portas, e não de frios hospitais quando bebês. Como há pouca gente na rua, os segredos arquitetônicos das fachadas se desvelam ante seus olhos. Dá para ver os mosaicos trabalhados nos pisos dos sagüões dos edifícios antigos, as portas esculpidas em madeira maciça, insinuando os titãs dos quais foram arrancadas. Em cada fachada percebe-se a mão de um artesão habilidoso competindo com os vizinhos para produzir a obra mais bela da rua.
Ao chegar ao palácio já encontrei uma pequena aglomeração de asiáticos. Pelo visto eles também gostam de acordar cedo. Demorei cerca de meia-hora para inspecionar as fachadas imponentes, jardins e ver a guarda marchar. Cumprida essa etapa, que foi uma espécie de formalidade, já que não me interesso muito por soberanos e seus asseclas, segui para a biblioteca nacional.


Fachada do palácio - Arquivo Pessoal

Que monumento! O saber exala pela porosidade dos tijolos. Você é recebido por uma fachada primorosa e pelas estátuas de Cervantes, Lope de Vega (seu notório rival), Nebrija, Vives, Santo Isodoro e Alfonso X – O Sábio. E para minha surpresa descubro que há um museu do livro. Entrada franca, do jeito que o brimo gosta! De papiros e instrumentos pré-históricos para se fazer pinturas rupestres a computadores e internet estão representadas no museu. Algumas peças belíssimas como um grande mapa mundi que ornava uma biblioteca particular no século XVII e um dispositivo para imantar agulhas para bússolas podem ser vistos. A grande decepção é descobrir que não existe um único manuscrito ou primeira edição de Cervantes nem no museu e nem na biblioteca, que oferece visitas guiadas pelas suas dependências. E agora, como na maioria das bibliotecas modernas, você não tem acesso direto às estantes, tem que requisitar o livro que quer ler. Não me interessa a desculpa que ofereçam, mas isso é obra do próprio demo junto com os burocratas que detestam livros, num complô internacional para destruir a vida de bibliófilos e acabar com as bibliotecas. Só alguém que odeia livros e leitores pode pensar em algo tão cruel. A moça da recepção me falou que tinham mais de vinte milhões de livros! E não se pode vagar entre as estantes. Malditos! Sacripantas! Sicofantas! Biltres! Velhacos!
Acabei por me conformar com a situação e me parece que se você ficar sócio da biblioteca há espaços em que pode entrar. Logo me imaginei morando em Madrid por causa da biblioteca e me associando. Em dois meses certamente já teria feito amizade com alguém que me deixaria vagar à vontade por aqueles imensos corredores rescendendo a cultura e história. Afinal, regras estúpidas existem para serem quebradas. Eu entendo que todo leitor voraz é um cleptomaníaco em potencial se se deparar com um livro que não possa adquirir, quando muitas vezes é arrebatado por uma fome quase sexual, se deixa levar pelos seus instintos primais e subtrai um livro. Mas que criem uma maneira de evitar o furto. Impedir o leitor de acessar os livros é simplesmente retirar o motivo da existência da própria biblioteca. Enfim...

Fachada da biblioteca - Arquivo Pessoal

Passeio concluído, decidi vagar mais um pouco em busca do restaurante perfeito, até que passei por um mercado tradicional (desculpe-me estimado leitor, mas não lembro qual nome de santo carregava tal estabelecimento) e decidi entrar. Três andares onde se podia adquirir frutos do mar, queijos e iguarias locais, além de vários estabelecimentos oferecendo tapas e refeições. Comi algo por lá, e segui meu caminho procurando pela Gran Via. Nesse ponto me acreditava perdido e as pernas começavam a me faltar.
Chequei o app do celular e havia caminhado quase 12 km. Para mim isso é quase como se tivesse realizado um iron-man.
Os caminhos que peguei após sair do mercado me levaram providencialmente de volta a livraria La Central, onde passei calmamente o resto do dia comprando mais livros e tomando café. Avaliei a possibilidade de ir a um Hamman que diziam ser bom, mas aquele café entre os livros realmente teve um efeito magnético poderoso sobre minha derriére e só saí de lá para tomar um chocolate quente e voltar ao hotel.
Há pelo menos quatro museus que eu ainda quero visitar na capital, sem falar num sem-número de restaurantes. Também gostaria de conversar com alguns corretores de imóveis pois me parece que há algumas oportunidades por lá. De qualquer maneira vai ter que esperar pela próxima viagem...

Até a próxima e bonne voyage!

Ali Baba

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