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Escrito por Struggle    29/01/2017 22:57:44

Atacama, Chile


Quando viajamos, buscamos o lazer, conhecimento ou mesmo novas oportunidades de negócios. Seja através de novos lugares ou diferentes tradições, nossas viagens nos auxiliam a buscar momentos de reflexões acerca da nossa vida cotidiana. Seria como um fôlego após emergirmos das profundezas do estresse e da rotina. Além do lazer, uma viagem deve agregar mais experiências em nossa bagagem, independentemente do seu destino.

A busca pelo exótico ou inusitado nem sempre significa ter que se deslocar a algum lugar muito distante. É possível encontrar lugares memoráveis e marcantes em nosso continente sul-americano, muitas vezes erroneamente relegado como um destino secundário ou menos admirado.

Foi com esta ideia que embarcamos rumo ao Atacama, região desértica no norte do Chile. A chegada a este amigável, seguro e desenvolvido país se realiza facilmente através de um voo a Santiago desde diferentes origens no Brasil. O voo Guarulhos-Santiago foi realizado pela Gol, com o conforto de uma internet a bordo (Boeing 737-800).  A passagem pela cordilheira já nos brinda com um espetáculo , com a aeronave ladeando o Aconcágua, a quase 7 mil metros de altitude. Neste trajeto também há várias opções pela LATAM. Em Santiago, faz-se uma conexão para a longínqua cidade de Calama, base de várias mineradoras. Este voo foi feito pela Sky, uma companhia aérea chilena low cost, num compacto e apertado Airbus A319. Neste trechos também há opções pela LATAM.

A chegada em Calama é marcada pela percepção que você adentrou explicitamente no deserto. A secura do ar e a paisagem um tanto quanto inóspita só é quebrada pelo movimento proporcionado por esta próspera cidade que parece crescer em ritmo asiático, com novos condomínios e casas para os trabalhadores da área de mineração.

Se você busca um pouco de autonomia, alugue um carro. É possível se deslocar de ônibus até San Pedro de Atacama, cidade base para as explorações da região, mas isso significa ficar refém das operadoras de turismo e de seus passeios. Ao alugar um carro, se possível opte por um veículo com tração integral (4X4) – há várias opções nas diferentes locadoras, sendo que as nossas conhecidas camionetes estão disponíveis e podem proporcionar uma maior segurança e autonomia em trechos fora de estrada. Ao longo do caminho, conhece-se a geração de mais riqueza pelo deserto. Além do minério, o deserto também fornece recursos com a exploração de energia eólica e solar, com uma gigantesca planta fotovoltaica.


Imagem 1: Vulcão Licancabur, majestoso e imponente, visto do quintal da nossa nova casa no Atacama (arquivo pessoal).

Para hospedagem em San Pedro de Atacama há opções para todos os gostos e bolsos. Desde módicos e descolados albergues a hotéis de extremo luxo. Aqui, também pensando em autonomia e privacidade, alugamos uma casa na área rural de San Pedro de Atacama (Casas Del Valle De La Luna, facilmente acessível pelo www.booking.com) lugar que se revelou de uma beleza e uma tranquilidade surpreendente e com uma vista espetacular (Figura 1). A proprietária Alejandra, que mora no local. nos atendeu pelo WhatsApp ainda no Brasil e nos sanou todas as dúvidas. É necessário pagar metade do valor em antecedência para assegurar a reserva, realizado pelo sistema Pay-Pal. Com esta opção de hospedagem há todo o conforto de um hotel, com serviço de quarto e troca de toalhas e roupa de cama, com a exclusiva privacidade de uma casa. Trouxemos provisões de Calama, após uma rápida incursão a um supermercado no centro da cidade. A ideia era cozinhar em casa e, para nossa surpresa, ainda tínhamos uma churrasqueira no quintal! Não faltou oportunidade para uma boa parilla.

Após o primeiro e agradável pernoite em San Pedro, partimos com destino à Laguna Baltinache, sugestão da própria Alejandra. É preciso voltar em direção a Calama e, após alguns quilômetros é possível parar na Cordilheira de Sal, cadeia de montanhas próxima à San Pedro. Nas margens da estrada há mirantes do lugar, que parece ter saído de um filme de ficção científica, intercalando paisagens lunares com sítios que mereceriam estar em um bom filme de faroeste.

Depois de várias fotos, retornamos à estrada e com mais alguns quilômetros de asfalto entramos no Llano De La Paciecia, caminho de cascalho que parece nos levar para a imensidão do nada. É necessário transcorrer 45 km nesta estrada, o que pode ser realizado em cerca de 40 minutos. O percurso é algo desafiador, pois na grande maioria do tempo você estará sozinho na imensidão do deserto. Previna-se com uma boa provisão de água e nunca, jamais, deixe o combustível escasso. Uma pane aqui pode significar várias horas de espera até que uma viva alma passe e o auxilie na resolução do infortúnio. Embora ameaçador, o desafio faz com que você pense e se prepare para o pior. Este simples planejamento também pode, e deve, ser transposto para o novo cotidiano, não? Pois bem, depois de vencido o primeiro desafio, chegamos à Laguna Baltinache. E como uma grande recompensa após a tensão inicial, temos um conjunto de lagoas altamente salinizadas (suas águas possuem 7 a 8 vezes mais sal que a água do mar) e, sim, é possível banhar-se em duas delas. Para que ir ao Mar Morto se temos estas opções ao nosso lado? Adentrar estes poços de sal e minerais traz uma sensação pouco usual pela facilidade com que flutuamos. Imerso nestas densas águas e rodeado pela imensidão de rochas, areia e sal, edifica-se um experiência que dificilmente será esquecida.


Figura 2: Uma das lagoas salinizadas do complexo Baltinache. Um espetáculo a parte para os olhos (arquivo pessoal).

Depois do banho fantástico (não se esqueça de tirar o sal do corpo em duchas gratuitas na recepção deste local), retornamos para a estrada e seguimos adiante, contornando praticamente todo o Salar do Atacama. Ao fundo do salar, denota-se uma grande operação mineradora, com uma grande exploração de lítio, com pesados caminhões levando aquela matéria prima em direção a Antofagasta. Após passar pelas mineradoras, chegamos ao povoado de Peine, com escassos habitantes desafiando aquele inóspito lugar com muita humildade e simplicidade. De volta à direção de San Pedro, completando o contorno do Salar do Atacama, ainda é possível visitar a Laguna de Chaxa, morada dos espetaculares flamingos. As lagoas do Salar proporcionam a proliferação de um pequeno crustáceo, que servirão de alimento para estas elegantes aves. Constatar a presença destes belos seres em meio à aspereza do lugar desperta a contemplação do delicado equilíbrio que a Natureza pode alcançar.

No segundo dia, voltamos em direção ao sul de San Pedro, com uma parada na Laguna Cejar. Diferentemente da Laguna Baltinache, a Laguna Cejar não está habilitada ao banho. Mas a beleza do contraste de suas águas de cor azul turquesa com o onipresente e majestoso vulcão Licancabur torna este lugar uma passagem obrigatória.

Seguindo em direção sul, passamos pelos pueblos de Toconao e Soccaire. Este último, já numa altitude de 3.500 metros, oferece opções de almoço com excelente cozinha local (destaque para a sopa de quinoa). Abastecidos, seguimos adiante, rumo às Lagunas Altiplanicas, sendo que subimos ainda mais um pouco na altitude em estrada de asfalto, e após, é necessário transcorrer 7 km de cascalho até alcançarmos a região destas lagoas. Localizadas a cerca de 4.200 metros de altitude, a Laguna Miscanti e a Laguna Miñique, ladeadas pelas homônimas montanhas, se apresentam como imensos refúgios de beleza natural, paz e contemplação. É possível observar a presença de flamingos e guanacos nos arredores.


Figura 3: Lagoa altiplânica Miscanti, a 4.200m de altutide, convida à contemplação (arquivo pessoal).

De volta à Ruta 23, em direção ao Paso Sico divisa com Argentina), percebemos que a ocupação humana vai ficando para trás. O asfalto acaba, e o cascalho aparece revelando que estamos a adentrar áreas muito remotas. A beleza das montanhas e vales do lugar aumenta à medida que vencemos mais alguns metros de altitude. Alcançar o Salar de Talar com suas incríveis piedras rojas é como chegar em um outro planeta. A imensidão das montanhas cercando aquele cândido e puríssimo salar nos remete à grandiosidade do nosso habitáculo. Seguindo pela mesma estrada, ainda é possível alcançar a Laguna Tuyajto, com suas margens cravejadas por cristais de sal e sua salina água a refletir perfeitamente a cadeia de montanhas que a rodeia.


Figura 4:  Senhor dos Anéis? Interestelar? Não, você está às margens da remota Lagoa Tuyajto (arquivo pessoal).

O dia está próximo do final e é preciso retornar. Cansados e com um leve torpor pela altitude (no trajeto alcança-se cerca de 4.600 metros do nível do mar), retornamos a San Pedro, com a sensação de ter visitado algum remoto planeta em uma galáxia muito distante. O terceiro dia foi reservado para incursões mais próximas, sem grandes deslocamentos. Muito próximo de San Pedro está o Valle De La Muerte. Na década de 50, o arqueólogo francês Gustave Le Page encontrou várias ossadas neste local e pressupõe-se que aqui seria o destino final de enfermos e idosos dos povos atacamenhos antepassados. A paisagem é fascinante, com dunas e desfiladeiros. Após uma caminhada é possível alcançar o ponto mais alto do local, com uma vista incrível deste lugar.  Para as caminhadas, lembre-se de levar água a bordo de uma bolsa ou mochila. Não se esqueça do chapéu e do protetor solar!

Ao quarto dia, visitamos o nosso vizinho Valle De La Luna, com diferentes opções de caminhada. É possível conhecer uma caverna de sal (não esqueça de levar um lanterna – pode ser do celular), com trilhas em meio aos efeitos da erosão constante sobre as rochas salinas, pode-se conhecer enormes dunas de areia e visualizar a Cordillera de La Sal e a Cordillera Domeyko, além de vários vulcões, como o Licancabur (5.916 m), Aguas Calientes (5.924 m), Lascar (5.154 m), e Acamarachi (6.046 m). Quando você menos imagina, é novamente surpreendido com uma espetacular paisagem. Aqui no Valle De La Luna é um excelente ponto para contemplar o pôr-do-sol. Com o bilhete de entrada para o Valle De La Luna inda é possível acessar a Piedra Del Coyote, um pouco acima, outro ponto para apreciar o crepúsculo, ou simplesmente admirar todo o espetáculo.

No ultimo dia visitaríamos os afamados Geiseres Del Tatio, a cerca de 90km de San Pedro, mas uma rara (e forte) chuva praticamente destruiu alguns pontos da estrada de acesso, próximo à trilha inca de Guatin. Ficou para a próxima vez! Aproveitamos para conhecer melhor o pueblo de San Pedro, sendo possível ao interessante Museo Del Meteorito, com uma das maiores coleções privadas destes fragmentos celestes. É possível tocá-los e aprender como são formados e como chegam até nosso planeta.

Remota e inóspita, esta região nos convida à contemplação e à reflexão. Tornamo-nos pequenos diante da imensidão do deserto, da infinidade das estrelas (sim, aqui temos um dos melhores locais para observação de estrelas e planetas) e da inesquecível beleza deste destino. O Atacama nos convida à contemplação e à reflexão. E nos marca indelevelmente.



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