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Escrito por Struggle    13/01/2017 01:15:16

Vale o Buy and Hold?


Abelardo aprecia padrões. Busca na beleza das simetrias o equilíbrio para a sua mente inquieta.Precavido, logo cedo sabia que necessitava de reservas para uma eventual adversidade, ou para a fadada senilidade. Sim, ele já conseguia antever e provisionar estes recursos.

Desde cedo interessou-se pelos mercados de capitais. Um pouco temeroso, acompanhava as oscilações da bolsa de valores daquele país tropical, um tanto quanto volátil e incerto. Até que em um dia (ou melhor foi em uma noite quente de verão), depois de uma reflexão frutífera, decidiu correr o risco em abrir uma conta numa corretora. Estávamos em 2003, e o temor Lula já havia cedido, um tanto quanto pela Carta aos Brasileiros, outro tanto pelas decisões acertadas do ex-tucano Meirelles. As velas estavam ajustadas, e um vento forte em direção ao Eldorado das Commodities começara a soprar.

Abelardo ligava diariamente para o seu corretor (naquela época funciona assim), e empolgado, direcionava os recursos de suas economias. Montara uma carteira com papéis de primeira linha.Petrobras, Vale do Rio Doce (que depois se tornaria Vale), Bradesco e Itaúsa.

Muito animado, via o seu bolo crescer com a potência de um fermento Royal. Um tanto quanto soberbo, não deixava de conter um sorriso enquanto o cunhado guardava os seus trocos num fundo DI do Banco do Brasil (e olha que o cunhado ficava contente com o rendimento).

Com os pés no chão,Abelardo abandonava rapidamente essa inebriante euforia. Sabia que estava em um terreno instável e que deveria se guiar pela razão. Começou a estudar um pouco de análise fundamentalista. Interpretava os balanços das empresas com avidez, e decifrava todas aquelas siglas com muita responsabilidade. Ao mesmo tempo,dedilhou biografias do Buffet, e aquele livro do Graham, O Investidor Inteligente, passou a ser a sua leitura de cabeceira. Os filtros de Graham eram as chaves que abririam as portas para o paraíso...

Começou a ter alguma maturidade contábil e percebeu uma vultosa quantia na sua conta na corretora,fruto de uma generosa valorização daquela década de ouro. Tudo soprava a favor.O apetite chinês pelo minério de ferro extrapolava o firmamento e rumava às estrelas, uma chuva de investimentos veio para o país com o grau de investimento, a moeda se sobrevalorizava, enfim, era ganho por todos os lados. Aberlado decidiu correr um pouco mais de riscos e vendeu todo os papéis para concentrar tudo em Vale. E focaria seus estudo somente nesta empresa. Seria uma espécie de porta-voz do minério. Um dragão do iron ore.

Num primeiro momento, deu muito certo. O ano era 2007 e Abelardo não esquece o dia em que encontrou Roger Agnelli num outlet perto de Nova Iorque. Naquele ano, os dividendos da empresa foram muito generosos e Abelardo se deu àquele luxo. Só não sabia que encontraria seu ídolo! Não deixou passar em vão a oportunidade e pediu um autógrafo daquele ícone da gestão emergente.

Era meio óbvio que aquela festa, permeada por uma irracional exuberância, teria um fim. Abelardo se preparava para isto e aprendeu que a saída (venda) seria acionada quando houvesse um dado fundamentalista consistente. Um prejuízo anual, por exemplo. E veio 2008. O mundo do mercado de capitais parecia desabar como um castelo de cartas.Mas os princípios fundamentalistas de Abelardo fizeram-no manter a sua posição.Via o valor da cotação (e do seu patrimônio financeiro) ruir. Sabia que aquilo seria um grande aprendizado. Valia-se dos fundamentos para manter as suas ações. Ainda aprendera a realizar umas operações com opções, numa evidência clara de sua sofisticação e amadurecimento como investidor, e assim, remunerava sua carteira. O duro era ganhar 30 a 40 centavos por ação numa operação de venda coberta, enquanto o papel derretia 3, 4 ou 5 reais na sua cara. Mas, com o controle emocional que havia desenvolvido, manteve-se firme. Sabia que seria recompensado no futuro. E o holder vive pela recompensa futura, não é mesmo?

Suas conclusões se mostraram acertadas. Logo no final de 2008, Vale já demonstrava a mesma força de alguns anos atrás. Em pouco tempo voltou a patamares mais confortáveis, até que em 2011 voltou aos seus valores recordes.

A partir de então, o que seria a ruptura de topos, como era de se esperar, numa tendência natural daquela empresa magistralmente gerida, aconteceu algo fora dos padrões. Uma queda gradativa da demanda chinesa pelo minério de ferro somada a uma oferta abundante da matéria prima pelas grandes mineradoras do planeta, fizeram a cotação do iron ore cair. De uma maneira meio visível, mas ainda insuficiente para causar um maior impacto nos balanços.

Abelardo já tinha o conceito de que a empresa operava numa atividade cíclica e que tudo aquilo seria passageiro.

Só que, somada à desvalorização do seu principal produto, os custos de uma alavancagem do endividamento para o propalado “crescimento orgânico” bateram à porta. E os balanços pioraram.

Fantasmas foram tirados do armários, e prejuízos (doravante denominados não-recorrentes, olha que palavra mais atenuante...) apareceram. O primeiro trimestral. O segundo. E apareceu um prejuízo anual. Somado a isto, a pior catástrofe ambiental ocasionada por uma mineradora em território brasileiro levou a mortes e soterramento de uma área gigantesca por lama contaminada. Rios e bacias hidrográficas inteiras foram lavadas por uma enxurrada de resíduos, deixando emergir uma série de incompetências e improbidades.

Aquilo foi a gota d’água para Abelardo, que tanto apreciava as boas práticas de gestão. Jogou a toalha no final de 2015. Quando vendeu a totalidade de suas ações, o valor de face dos papéis era algo próximo do valor de quanto havia entrado, há um pouco mais de uma década. Obviamente, havia comprado as ações ao longo do caminho e aquela sua decisão o fizera amargar um prejuízo. Por outro lado, havia o ganho dos dividendos. Mas passou pela sua cabeça se não teria sido melhor deixar todas essas economias naquele fundo DI do Banco do Brasil que seu cunhado tanto falava...O discreto ganho ainda seria acompanhado por um pouco de paz.

O pior viria depois. Após a venda de Abelardo, plenamente justificada pela análise fundamentalista, Vale realizaria um dos maiores repiques da sua história, quase quadruplicando o seu valor no ano de 2016. A análise fundamentalista também não foi capaz de direcionar este movimento, basicamente rastreado pela nova ascensão do preço do minério. Abelardo não gosta mais de ouvir a palavra Vale, se é que vocês me entendem...

Este texto não é para afugentar o leitor do mercado de capitais. Apenas mostra o quão difícil é fazer Buy and Hold. Análise fundamentalista, controle emocional, estudo, filtros de Graham, reinvestimento de dividendos, busca de parâmetros mais confiáveis para vender... Todos estes são instrumentos fundamentais para o gerenciamento de uma carteira de ações para o longo prazo. Mas mesmo com tudo afiado e sintonizado, saiba que não será nada fácil. Afinal, o maior ganho custa. Não vem de graça. 



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